Por Silvia Rosa
De São Paulo
Com a queda da taxa básica de juros (Selic) e a alta instabilidade no mercado acionário, diante das incertezas em relação aos desdobramentos da crise de endividamento na Europa, os investidores começam a olhar mais para papéis de crédito privado como opção para buscar um retorno mais elevado.
Em meio a esse cenário, os títulos privados com isenção de imposto de renda (IR) sobre ganhos para investidores pessoas físicas - como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Agrícola (LCAs) - tornam-se cada vez mais atraentes, já que oferecerem uma rentabilidade líquida superior a dos tradicionais Certificados de Depósito Bancário (CDBs).
O estoque conjunto desses três papéis (CRI, LCI e LCA) cresceu 53,1% em 2011, atingindo R$ 93,856 bilhões, segundo dados da Cetip - Balcão Organizado de Ativos e Derivativos. O destaque foram as LCIs, cujo estoque saltou de R$ 29,260 bilhões em 2010 para R$ 46,832 bilhões no fim do ano passado, um crescimento de 60%. Cerca de 90% do estoque dos três títulos está hoje nas mãos de investidores pessoas físicas, afirma Andrea Moufarrege, diretora de investimento do HSBC Private Bank.
Antes concentrados entre os clientes do private banking, com aplicação mínima de R$ 300 mil na maioria das emissões, os CRIs começam a ganhar espaço no segmento de varejo. No ano passado, a Caixa realizou a primeira oferta de CRIs que contemplou esse público, em que captou R$ 232,7 milhões (aplicação mínima de R$ 10 mil). Cerca de 90% dessa colocação foi destinada ao varejo, com a participação de 1.675 investidores. O valor médio da aplicação, no entanto, foi de R$ 65 mil. Esses papéis contaram com a Caixa como formador de mercado, garantindo, assim, liquidez mínima e referência de preços para esses títulos.
O sucesso da primeira emissão abriu a possibilidade da realização de uma oferta para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), dessa vez sob regime de esforços restritos, conforme a Instrução 476 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e que somou R$ 1,5 bilhão.
Por contarem com o benefício fiscal, as LCIs e as LCAs têm concorrido com CDBs, uma vez que o risco de crédito do papel está atrelado às instituições financeiras emissoras, que podem ser bancos ou companhias hipotecárias. Esses títulos também têm a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) no valor até R$ 70 mil e contam com garantia de recompra pelos bancos emissores. Com essas vantagens, apenas na Brazilian Mortgages Cia. Hipotecária (BM) a emissão de LCIs cresceu 67% no ano passado em relação a 2010, somando um portfólio superior a R$ 800 milhões, afirma Vitor Bidetti, diretor da BM.
As LCIs têm como lastro créditos imobiliários já desembolsados. Na BM, a aplicação mínima é de R$ 20 mil e a rentabilidade oferecida oscila entre 85% e 95% da variação do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI, referência para as aplicações conservadoras), dependendo do prazo e volume aplicado. Os prazos das LCIs geralmente variam de dois meses a dois anos, ou seja, são bem menores que os dos CRIs, cujo prazo médio varia de sete a dez anos. "Mesmo oferecendo uma taxa mais baixa que os CDBs, a rentabilidade líquida desses papéis chega a ser superior por conta da isenção de IR", destaca Bidetti. Além da vantagem fiscal, as LCIs ainda contam com outras estruturas que garantem maior segurança, como a alienação fiduciária.
Acessível hoje apenas para os clientes do private banking do Banco Brasil, com aplicação mínima de R$ 1 milhão, as LCAs serão distribuídas também para o segmento de varejo de alta renda do banco, o Estilo, a partir deste ano. "Estamos desenvolvendo um sistema que irá permitir colocar emissões com 'tickets' menores", explica Osvaldo Cervi, gerente-geral do private banking do BB, que detém 62% do mercado de crédito ao agronegócio, que soma R$ 83 bilhões.
Só no segmento de private banking do banco, as aplicações em LCAs saltaram de R$ 250 milhões em dezembro de 2010 para R$ 6 bilhões em 2011. O prazo mínimo de investimento no papel é de 90 dias, mas o prazo médio das emissões do BB é de 180 dias. Quanto mais longo o vencimento, maior o prêmio oferecido. Os papéis com vencimento em 90 dias oferecem uma taxa de 85% do CDI, enquanto títulos acima de um ano chegam a pagar um rendimento de 1% a 2% acima do CDI. "Os investidores terão que abrir mão de liquidez se quiserem ter um retorno melhor", diz Cervi, do BB.
Apesar de ter uma carteira ainda pequena de crédito imobiliário, o banco também pretende oferecer LCIs para os clientes do varejo de alta renda. "Há apetite para investimentos em crédito privado, com os investidores buscando diversificar o risco", diz Cervi.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), do total de R$ 144 bilhões em títulos de crédito privado dos clientes private, 15% estão alocados em LCIs, 10,5% em LCAs e 2,5% em CRIs. No total, os títulos de crédito privado respondem por 30% dos recursos sob gestão no segmento de private banking.
Para os bancos, as emissões de LCAs e LCIs têm sido uma alternativa de captação de recursos para as operações de crédito imobiliário e agrícola, que são tipicamente financiadas com recursos da poupança. Isso porque esses papéis são isentos de recolhimento de compulsório de 25% sobre seu valor - e também estão liberados da cobrança 0,2% sobre cada operação ao FGC e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). "A carteira do agronegócio tem crescido acima da captação da poupança", afirma Cervi, do BB.
No caso do crédito imobiliário, como a legislação obriga os bancos a aplicar 65% do que é captado via caderneta de poupança em financiamento habitacional, as instituições acabam emitindo as LCIs quando a carteira de crédito imobiliário é maior que o volume destinado para cumprir essa exigência.
Já o crescimento das emissões de CRIs, que contam com um prazo de investimento mais longo, depende do desenvolvimento do mercado secundário de renda fixa, fundamental para trazer maior liquidez a essas operações. Os executivos, no entanto, acreditam que o mercado de securitização tem muito espaço para crescer como opção alternativa para o financiamento à habitação, que deve atingir de 7% a 8% do PIB, segundo previsão da Caixa.
Fonte : ValorOnline